Durante muitos anos, falar de ciclismo no Brasil era quase sinônimo de falar de mountain bike. Das trilhas de fim de semana às grandes maratonas, o MTB sempre foi a principal porta de entrada para quem queria pedalar, competir ou simplesmente viver o esporte fora do asfalto.
Em 2026, esse cenário continua forte, mas mudou de forma.
O MTB brasileiro não vive mais apenas da pergunta “está crescendo?”. A pergunta agora é outra: qual MTB está crescendo?
O país tem calendário cheio, provas tradicionais, eventos com formato de festival, crescimento do e-bike, avanço dos bike parks e uma nova concorrência por atenção: o gravel.
Calendário forte, mas mais segmentado
O calendário nacional mostra que o MTB brasileiro segue ativo em várias frentes. A Confederação Brasileira de Ciclismo lista provas de XCO, XCM, XCE e eventos UCI em diferentes estados do país, com destaque para Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Paraíba, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco.
A Copa Internacional de MTB, uma das competições mais tradicionais da América Latina, confirmou três etapas em 2026: Conceição do Mato Dentro, Araxá e Congonhas, todas em Minas Gerais. Araxá segue como etapa histórica do calendário, enquanto Congonhas encerra a temporada entre 25 e 27 de setembro.
O cenário também ganha força com a Internacional MTB Series, que leva provas de XCC, XCO e XCM para cidades mineiras como Passos, com etapa marcada de 10 a 12 de julho de 2026.
Minas Gerais continua sendo o centro do MTB brasileiro
É impossível falar do MTB nacional sem falar de Minas Gerais.
O estado concentra alguns dos eventos mais importantes do calendário, tem tradição em provas de longa distância, altimetria forte, público engajado e cidades que já entenderam o valor turístico do mountain bike.
A presença de Conceição do Mato Dentro, Araxá, Congonhas, Lavras, Pará de Minas e Passos em grandes eventos mostra que Minas não é apenas palco de provas. É hoje um dos principais polos de desenvolvimento do MTB brasileiro.
O evento de MTB virou experiência
Outro sinal claro de mudança é o formato dos eventos.
A lógica deixou de ser apenas “chegar, largar e ir embora”. Cada vez mais, as provas se transformam em festivais, com arena, praça de alimentação, categorias para diferentes níveis, kids, tour, e-bike e programação para a família.
O Festival Brasil Ride 2026, em Botucatu, é um bom exemplo desse movimento. A programação inclui MTB Pro de três dias, E-bike Pro, MTB Sport, MTB Tour e Kids.
Isso mostra uma mudança importante: o MTB brasileiro não está crescendo apenas como competição. Ele cresce como experiência esportiva, turística e familiar.
O Brasil ainda forma atletas?
Sim, mas o desafio mudou.
O Brasil já provou que consegue formar nomes competitivos. Henrique Avancini, Raiza Goulão, Ulan Galinski e outros atletas abriram portas importantes para o país no cenário internacional.
Mas hoje o nível mundial está mais alto. As equipes internacionais trabalham com estrutura cada vez mais profissional, calendário planejado, análise de dados, nutrição, fisiologia, mecânicos especializados e preparação muito próxima do que se vê em modalidades de elite.
O desafio do Brasil não é mais apenas revelar talentos. É criar condições para que esses talentos permaneçam competitivos fora do país.
O gravel ameaça o MTB?
A resposta mais honesta é: não ameaça diretamente, mas disputa espaço.
O gravel cresceu porque oferece uma proposta diferente: pedais longos, estradas de terra, menos técnica que o MTB e mais liberdade que o ciclismo de estrada.
Ele atrai:
ciclistas de estrada que querem sair do asfalto;
pessoas que não querem trilhas muito técnicas;
atletas que buscam resistência e aventura;
marcas interessadas em um segmento novo.
Mas o MTB ainda tem algo difícil de substituir: trilha, adrenalina, técnica, comunidade e variedade.
O gravel pode até roubar orçamento e agenda de alguns ciclistas, mas não substitui a experiência de uma boa trilha de MTB.
E-bike: crescimento real, competição incerta
As e-bikes já fazem parte do MTB brasileiro, principalmente no uso recreativo, em trilhas, passeios, turismo e eventos com categorias específicas.
Elas ampliam o acesso ao esporte, permitem que mais pessoas pedalem por mais tempo e ajudam a incluir públicos que talvez não encarassem uma prova ou trilha convencional.
Mas no alto rendimento, o cenário ainda está em construção. A e-bike cresce como produto e experiência, mas ainda busca identidade competitiva própria.
O que está mudando no mercado
O consumidor também mudou.
Depois da explosão do mercado de bikes nos últimos anos, o ciclista parece mais seletivo. Em vez de trocar de bike a cada temporada, muitos passaram a investir em:
viagens;
inscrições em provas;
upgrades pontuais;
bike fit;
suspensão;
pneus;
componentes de performance;
experiências em bike parks.
A compra da “bike dos sonhos” continua existindo, mas o mercado parece migrar para uma fase mais madura: menos impulso, mais escolha.
O MTB brasileiro não está parado. Ele está se reorganizando.
Continua forte nas competições, especialmente em Minas Gerais. Cresce como experiência em eventos de festival. Ganha novos públicos com e-bike e turismo. Ao mesmo tempo, passa a dividir atenção com o gravel e com outras formas de ciclismo.
Talvez o melhor resumo seja este: o MTB brasileiro entrou em uma fase mais madura.
Menos dependente de uma única modalidade, menos preso a um único tipo de ciclista e mais conectado com experiência, comunidade, calendário e conteúdo.
Para quem olha de fora, pode parecer dispersão.
Para quem está dentro, é oportunidade.
